O inglês caminha para ser o piloto mais vitorioso de todos os tempos e ninguém parece capaz de para-lo. Ele já pode ser considerado o maior que a categoria já viu?
Por Luís Gustavo Ramiro Gonçalves // Instagram: @automitos

De tempos em tempos, alguns esportes são premiados com atletas que surgem para quebrar recordes e marcas, fazer o inimaginável, mudar o patamar da modalidade e se tornar a nova referência. A Fórmula 1 vive esse momento com a hegemonia do inglês Lewis Hamilton, recém-coroado hexacampeão da mais nobre categoria do automobilismo mundial.
O automobilismo – e a Fórmula 1 em particular – é pródigo na criação de grandes lendas. Pilotos capazes de feitos épicos, que cativaram multidões pelas pistas por onde passaram por sua capacidade de fazer um “algo a mais”: uma volta perfeita, uma vitória improvável, uma ultrapassagem épica, uma reviravolta mágica, uma volta por cima na carreira, uma invenção revolucionária. Cada um a seu modo, grandes pilotos são capazes de alguns desses feitos. Alguns poucos, no entanto, conseguem fazer esses feitos repetidas vezes e criar uma soberania e um domínio total sobre seus concorrentes. Assim acontece com o Hamilton na Fórmula 1.
A trajetória
Lewis Carl Davidson Hamilton era um kartista de muito talento, já notado muito jovem por Ron Dennis, chefão da então poderosa equipe McLaren. Com o apoio do time de Woking, o garoto inglês conseguiu progredir em sua carreira de forma rápida e categórica: campeão da Fórmula Renault britânica em 2003, da F3 europeia em 2005 e da GP2 em 2006. Em 2007, ainda aos 22 anos, recebeu a oportunidade de estrear na Fórmula 1 já em uma equipe de ponta, a McLaren.

Seu início foi cercado de expectativas e incertezas. Não havia dúvida que o jovem piloto era talentoso, mas será que ele estaria pronto para começar já numa equipe vencedora ou deveria ser testado antes em um time menor? Será que ter o então bicampeão Fernando Alonso como companheiro poderia ofuscar seu começo de carreira e desestabiliza-lo ou ele aprenderia com o espanhol? Será que um piloto tão promissor aceitaria a condição de segundo-piloto da equipe tranquilamente? Uma a uma, essas dúvidas foram ficando para trás. Hamilton conseguiu 12 pódios em 17 corridas, sendo 9 em sequência logo de cara. A primeira vitória veio em sua sexta corrida na categoria. Alonso foi encarado de igual para igual, e ambos empataram em pontos, apenas um ponto atrás do campeão Kimi Raikkonen. Foi a melhor temporada de estreia de um piloto que a Fórmula 1 jamais viu, que culminou na saída da estrela Fernando Alonso e Hamilton tendo a equipe voltada inteiramente para si já em seu segundo ano.
No ano seguinte, em disputa ferrenha com a Ferrari de Felipe Massa, Hamilton teve que batalhar até a última curva da última corrida no histórico GP Brasil de 2008 para garantir seu primeiro título mundial de Fórmula 1. De 2009 a 2012, a McLaren começou a ter dificuldades de encarar os carros mais fortes de Brawn GP e Red Bull mas, mesmo assim, Lewis conseguiu acumular 12 vitórias no período. O mesmo aconteceu em seu primeiro ano na Mercedes, em 2013, quando pontuou em 17 das 19 etapas e conquistou mais uma vitória mesmo sem ter o melhor carro.

A parceria Hamilton-Mercedes começou a colher frutos em 2014. Com a mudança de regulamento que deu início à era híbrida da Fórmula 1, bagunçou-se a ordem das forças, a montadora germânica passou a ser a equipe a ser batida e a disputa se resumiu aos dois pilotos das flechas de prata em um primeiro momento. Nico Rosberg fez jogo duro, mas Hamilton o superou em 2014 e 2015. No ano seguinte, Rosberg venceu por pouco e anunciou sua aposentadoria de surpresa. Sem os desgastes da concorrência interna, Hamilton pôde se concentrar em combater às crescentes Ferrari e Red Bull e assegurar os títulos de 2017, 18 e 19 – até agora..
O piloto e a personalidade
Fã confesso e com grande inspiração em Ayrton Senna, Hamilton sempre foi um piloto extremamente rápido, a exemplo de seu ídolo. Especialmente em seus primeiros anos de carreira, o estilo agressivo ficava evidente nas ultrapassagens ousadas e defesas de posição aguerridas. Era comum vê-lo fritando os pneus dianteiros na entrada de curvas mais fechadas. Seu estilo arrojado rendia frutos, mas cobrava o preço no alto desgaste de pneus e eventuais erros. Com o tempo, a maturidade lhe permitiu dosar a agressividade e passar a ser um piloto mais cerebral e estratégico. O Hamilton dos últimos anos ainda mantém a velocidade pura do garoto da McLaren – como evidencia seu recorde de pole positions na história da categoria -, mas aprendeu o momento certo em que deve ser rápido e quando dosar o pé. Nas sessões de qualificação, é simplesmente impossível não o colocar como favorito a cravar a pole. Já em corridas, ele é tão capaz de fazer a volta mais rápida da prova quanto de andar mais que qualquer um com um jogo de pneus gastos, como o GP do México desse ano deixou claro.

A sede por vitórias também se tornou uma marca registrada do piloto britânico. Seu ritmo de corrida é intenso e seu descontentamento é claro quando não está na liderança, como bem mostram suas conversas com a equipe via rádio. Mesmo sempre buscando andar próximo ao limite, é muito raro ver Hamilton cometendo erros. Contam-se nos dedos os acidentes, rodadas, ou escapadas em que esteve envolvido nos últimos anos. Foi fato raro o que aconteceu no GP Brasil desse ano, em que foi afoito na tentativa de ultrapassagem em Alex Albon e tocou no carro do adversário. Por outro lado, o incidente foi uma prova de sua gana pela vitória, uma vez que seu título já estava assegurado e mesmo assim ele não se contentou com um eventual segundo ou terceiro lugar.
Por uma coincidência (ou seriam as mudanças climáticas?), a Fórmula 1 tem experimentado muito poucas corridas sob chuva nos últimos anos. Mas quando ela vem, Hamilton é quase sempre o grande destaque. A boa fama se deu logo no início de carreira com atuações memoráveis, como as vitórias no GP do Japão de 2007 e da Inglaterra de 2008. Essa última, venceu com mais de um minuto de vantagem sobre o segundo colocado. Na era híbrida, vitórias em provas caóticas como o GP do Japão de 2014 e do Brasil de 2016 reafirmaram as habilidades do inglês no piso molhado. Mais uma semelhança com seu ídolo Senna.

Talvez a grande objeção sobre Hamilton em seus primeiros anos de carreira fosse seu psicológico supostamente frágil. Erros em momentos de pressão, principalmente no final das temporadas de 2007 e 2008, em que estava disputando o título, colocaram em dúvida sua força mental. Nos anos seguintes, sua vida de pop star sempre era notícia nos tabloides ingleses, e notou-se uma coincidência entre os momentos em que seu relacionamento com a cantora Nicole Scherzinger, sua então namorada, estava em crise, e uma queda em seu desempenho nas pistas. Hoje, já um piloto veterano, Hamilton tem justamente em sua alta concentração e foco um de seus grandes trunfos. Erros se tornaram raríssimos, mesmo em momentos de maior tensão.
O lado pop star de Hamilton continua presente. Presença constante em festas, shows e eventos dos mais badalados em todos os cantos do mundo, Lewis criou uma capacidade quase única de separar a vida pessoal do lado atleta. Segundo Toto Wolff, seu chefe na Mercedes, a liberdade de fazer o que mais tem vontade ajuda Hamilton a ser um piloto ainda melhor. Em um ambiente de esporte de alto rendimento, extremamente regrado, Hamilton virou notícia no ano passado ao sair do Grande Prêmio da Itália, ir a um evento de moda na China, outro em Nova Iorque, chegar a Cingapura próximo à data do Grande Prêmio e ainda vencer a corrida – com direito a uma volta mágica no treino que lhe garantiu a pole. Outro exemplo de seus inabaláveis foco e capacidade de concentração.
Além das incontestáveis habilidades na pista, a figura de Lewis Hamilton é emblemática para a categoria. Em 2007, praticamente todas as notícias de sua chegada à Fórmula 1 destacavam o fato de ser o primeiro piloto negro em 57 anos do esporte. Infelizmente, nada mudou desde então, e ele continua sendo o único. Desde as categorias de base, Hamilton e sua família sempre estiveram em ambientes exclusivamente ocupados por brancos e foram alvo de racismo, seja ele velado ou explícito.

Hamilton se diferencia dos outros pilotos também por seu estilo totalmente distinto do estereótipo de pilotos de carros: ele usa roupas descoladas e extravagantes (não à toa, assina uma coleção da grife Tommy Hilfiger), possui diversas tatuagens e piercings e gosta de mudar o visual do cabelo com frequência. Nos últimos anos, Lewis começou a encampar campanhas em prol do meio ambiente, tornou-se vegano e coloca-se como uma voz atuante em defesa de movimentos negros. Sua imagem é, sem dúvida, uma quebra de paradigmas sem precedentes na história da F1.
O melhor?
A apenas nove trunfos de chegar 92 vitórias e conquistar o recorde absoluto desse quesito, parece mais uma questão de “quando” do que de “se” para que Hamilton assuma a liderança histórica no número de corridas vencidas, deixando para trás o número já absurdo de Michael Schumacher. O sétimo título, que o igualaria a Schumacher, também parece bem encaminhado para 2020, em que o regulamento será praticamente idêntico ao de 2019 e do qual a Mercedes tem amplo conhecimento e vantagem sobre os concorrentes. O recorde de pole positions já está nas mãos de Lewis desde o ano passado.
Vivemos o auge da era Hamilton. Como piloto, é difícil imaginar que ele possa atingir um patamar acima do atual. Hoje, ele é onipresente entre os grandes pilotos de sua geração, uma vez que seus maiores rivais se aposentaram (Alonso e Rosberg), estão em fim de carreira (Raikkonen) ou já sucumbiram ao nível do inglês (Vettel). Com a nova geração em ascensão, liderada por Max Verstappen e Charles Leclerc, podemos esperar mais uns dois a quatro anos de Hamilton em alto nível até que o bastão seja passado aos garotos que prometem ser os grandes nomes da próxima década.

Ele está em vias de se tornar o corredor mais vitorioso de todos os tempos. Na pista, é um piloto praticamente sem defeitos, capaz de vencer corridas nas mais diversas situações. Fora delas, é uma figura emblemática para a Fórmula 1 e carrega a responsabilidade da representatividade. Você pode gostar ou não de Lewis Hamilton, mas esse nome já pode ser colocado como um dos maiores – senão o maior – da história. Cabe a nós, meros fãs e torcedores, admirarmos e curtirmos enquanto vemos ao vivo uma lenda se apresentar em plena forma pelas pistas ao redor do mundo.