Hamilton vence a segunda seguida, assume a liderança do campeonato e comprova o domínio da Mercedes em prova marcada pela falta de emoção
Por Luís Gustavo Ramiro Gonçalves // Instagram: @automitos

Hamilton celebra a vitória no milésimo GP da Fórmula 1 (Imagem: FIA)
A Fórmula 1 chegou ao Grande Prêmio número 1000 de sua história em Xangai na China, no último domingo. O fato desta corrida histórica ser realizada em um palco considerado menos tradicional no mundo do automobilismo não é coincidência, uma vez que a organização da F1 tem apostado forte na Ásia nos últimos 20 anos a fim de expandir seus mercados. Além de China, Malásia, Barein, Turquia, Cingapura, Abu Dhabi, Coreia do Sul, Índia, Azerbaijão e, em breve, Vietnã, são os cenários visitados pelo circo da Fórmula 1 em anos recentes. Alguns desses destinos chegaram e logo se foram, mas a corrida rumo ao oriente se mostra o caminho para a expansão dos lucros e da marca da Fórmula 1. Nesse contexto, a etapa 1000 da história do esporte se encaixa perfeitamente no maior dos mercados asiáticos. Esportivamente, porém, a prova ficou devendo.
O resultado da classificação no sábado mostrou perfeitamente o equilíbrio de forças para esta etapa, e que deve se manter relativamente estável ao longo do ano. Cada uma das cinco primeiras filas foi ocupada uma única equipe: Mercedes, Ferrari, Red Bull, Renault e Haas, respectivamente. A pole ficou com Valtteri Bottas, apenas 23 centésimos à frente do companheiro Lewis Hamilton. Na Ferrari, Sebastian Vettel se colocou à frente de Charles Leclerc por margem ainda menor: 17 centésimos. Max Verstappen colocou largos 8 décimos de vantagem sobre seu parceiro Pierre Gasly, emparelhados na terceira fila. Próximos ao segundo carro da Red Bull, Daniel Ricciardo e Nico Hulkenberg partiam de sétimo e oitavo com ínfimos 04 centésimos entre si. Fechando o top 10 ficavam Kevin Magnussen e Romain Grosjean, ambos sem tempo no Q3. Curioso notar que houve um claro distanciamento entre as equipes e uma proximidade enorme entre os companheiros. A exceção fica por conta de Gasly, que andou mais próximos às Renaults que à Red Bull de Verstappen.

No domingo, a baixa temperatura da pista fez com que Verstappen e Robert Kubica rodassem ainda na volta de apresentação. O piso escorregadio poderia ser um fator interessante para movimentar a prova, mas não foi o que se viu. Já com pneus aquecidos, erros foram raros na etapa chinesa.
Com o apagar das luzes vermelhas, Hamilton pulou à frente de Bottas para assumir a liderança e de lá não mais sair, enquanto Leclerc tomou o terceiro lugar de Vettel. Na curva 6, Daniil Kvyat se viu prensado no meio das McLarens de Carlos Sainz e Lando Norris, que quase capotou ao ter seu pneu traseiro tocado. Pior para a dupla da equipe inglesa, que teve que parar nos boxes e caiu para o fundo do grid. Kvyat foi penalizado com uma passagem pelos boxes – punição exagerada, em nossa opinião.

No pelotão da frente, o rádio da Ferrari logo entrou em ação, com Vettel imediatamente atrás de Leclerc dizendo estar mais rápido que o colega e solicitando passagem. Após algum diálogo, o monegasco abriu passagem para o alemão na volta 11. Logo depois, foi a vez de Leclerc fazer seu jogo psicológico e pressionar a equipe com o mesmo argumento de estar mais rápido que o companheiro à frente. Enquanto a equipe vermelha não se entendia, Verstappen, que nada tinha a ver com isso, se aproximava.
Na volta 18, Verstappen abre a rodada de pit stops trocando os pneus médios pelos duros. Vettel fez o mesmo na volta seguinte. Com pneus novos, os dois protagonizaram a grande disputa da corrida. Verstappen mergulhou por dentro do alemão no final do retão, mas tomou um lindo X e ficou para trás. A Ferrari ainda manteve Leclerc na pista com pneus gastos por mais 4 voltas, fazendo com que o garoto voltasse dos boxes em um quinto lugar distante de Vettel e Verstappen.

Bottas e Hamilton pararam nas voltas 22 e 23, em uma rara estratégia de chamar antes o segundo carro. Com pneus mais aquecidos que os de Hamilton, Bottas fez a volta mais rápida da prova duas vezes seguidas e ameaçou colar no companheiro, mas o pentacampeão reagiu e conseguiu reabrir vantagem na ponta.
Na primeira metade da prova, destaque para Sergio Perez e Kimi Raikkonen, 12º e 13º no grid, respectivamente. Ambos ganharam a posição de Kvyat, acidentado, e passaram Magnussen, Grosjean e Hulkenberg na pista. Hulk, por sua vez, teve que abandonar por problemas em seu Renault. A equipe francesa, aliás, vem sofrendo com a confiabilidade de seu carro em todas as corridas temporada.

Contrariando quem apostava numa estratégia de uma parada, todos os ponteiros pararam uma segunda vez para colocar um novo jogo de pneus médios. Verstappen abriu a janela de pit stops mais uma vez, no trigésimo quinto giro. Vettel parou na volta subsequente. Na volta seguinte, a Mercedes ousou e chamou Hamilton e Bottas juntos quando apenas 5 segundos os separavam. Com uma precisão germânica, o time fez as trocas de pneus de ambos de forma perfeita e seguiu na liderança. Bottas voltou atrás de Leclerc, que até fez jogo duro para entregar a posição, mas acabou cedendo o segundo posto. Assim como no retorno da primeira parada, o finlandês começou a tirar tempo do líder, mas logo foi perdendo fôlego.
A três voltas do fim, Gasly, que vinha isolado na sexta colocação, entrou nos boxes para colocar pneus macios e fazer a volta mais rápida da prova, garantindo um ponto extra. Até aquele momento, a melhor volta era de Vettel, que encostaria em Verstappen no campeonato. Movimento esperto da Red Bull, que tirou o bônus das mãos do rival e garantiu um ponto a mais no campeonato de construtores.

Assim, sem grandes surpresas ou emoções, Lewis Hamilton foi o primeiro a ver a bandeirada da milésima corrida da Fórmula 1. O inglês foi o vencedor também da corrida 900 (o excelente GP do Barein de 2014, que escancarou sua rivalidade com Nico Rosberg), tornando-se o primeiro a vencer duas provas centenárias. É justo que o maior piloto da geração, um dos maiores da história e nome quase hegemônico da era híbrida da F1 tenha essa honra. Com a vitória, o penta assume a liderança do campeonato de pilotos e abre caminho para o hexa.

Em segundo, Valtteri Bottas fecha a dobradinha da Mercedes, encaminhando mais um tranquilo título de construtores. É o melhor começo de ano de uma equipe desde a Williams de 1992, que competia com o poderoso FW14B. Bottas está mais perto de Hamilton do que esteve no ano passado, mas precisa de uma sequência de atuações memoráveis como a da Austrália para superar o colega.
Vettel sobe ao pódio pela primeira vez em 2019. Muito pouco para quem pleiteia o título. Em quarto no campeonato, 31 pontos atrás de Hamilton, a distância começa a ficar perigosamente grande.

Verstappen consegue colocar sua RBR mais uma vez entre os carros das duas maiores equipes e se mantém em terceiro no campeonato de pilotos, à frente das duas Ferraris. O holandês vem mostrando que está mudando de patamar, deixando de ser um talento arrojado e irresponsável para se tornar um piloto ainda arrojado, porém mais maduro.
Leclerc se viu prejudicado pela estratégia da Ferrari, que o manteve na pista com pneus gastos e o tirou da disputa com Vettel e Verstappen. Ainda assim, está apenas um ponto atrás do companheiro e mostrou mais uma vez ter personalidade forte. Sobre a equipe, o sinal amarelo está acesso. Enquanto erra estratégias e gasta tempo discutindo com os pilotos pelo rádio, a Mercedes abre caminho para o sexto título seguido.
Gasly, o sexto, entregou algo mais próximo ao que se espera dele e terminou no top 6. Se ainda está abaixo dos demais pilotos do pelotão da frente, pelo menos foi possível mostrar que tem mais a oferecer do que o feito nas duas primeiras etapas.

Ricciardo finalmente completou uma prova com a Renault, e no lugar que se imaginava: logo atrás das três grandes equipes.
Fechando a zona de pontuação está Alex Albon, que foi votado pelo público como o piloto do dia. O anglo-tailandês sofreu uma batida forte no terceiro treino livre e não participou da classificação, sendo obrigado a largar dos boxes. Demonstrando talento e oportunismo, conseguiu galgar posições até o décimo lugar, garantindo mais um ponto após o nono lugar no Barein.
Perez, oitavo, e Raikkonen, nono, foram muito bem na prova, ganhando quatro posições cada. O mexicano da Racing Point fez uma primeira volta primorosa e garantiu já ali seu lugar nos pontos. Kimi consegue pontuar pela terceira vez em três provas pela Alfa Romeo e é o sétimo no campeonato. Excelente performance do veterano até aqui.

Fechando a zona de pontuação está Alex Albon, que foi votado pelo público como o piloto do dia. O anglo-tailandês sofreu uma batida forte no terceiro treino livre e não participou da classificação, sendo obrigado a largar dos boxes. Demonstrando talento e oportunismo, conseguiu galgar posições até o décimo lugar, garantindo mais um ponto após o nono lugar no Barein.
Em seguida vieram Romain Grosjean, da Haas, completando sua primeira prova no ano; Lance Stroll, da Racing Point, em corrida discreta; Kevin Magnussen, mostrando que a Haas ainda tem que evoluir em ritmo de corrida; Carlos Sainz, da McLaren, prejudicado pelo toque na primeira volta; Antonio Giovinazzi, da Alfa Romeo, ainda devendo; e George Russell e Robert Kubica, ambos Williams, em mais uma demonstração da fase terrível vivida pelo time inglês. Não completaram a prova Nico Hulkenberg (Renault), Daniil Kvyat (Toro Rosso) e Lando Norris (McLaren), todos por problemas técnicos em seus carros.

Cercado de grande expectativa, o 1000º GP foi um tanto decepcionante. O circuito de Xangai proporciona boas disputas, mas não houve praticamente nenhuma entre os ponteiros. A Mercedes começa a abrir uma vantagem confortável no mundial de construtores e Lewis Hamilton pavimenta o caminho para o hexa campeonato e para alcançar os recordes absurdos de Michael Schumacher. Se não houver uma reação rápida da Ferrari a fim de alcançar as flechas prateadas, o campeonato tende a se resumir a uma disputa pelo terceiro lugar entre os pilotos vermelhos e Max Verstappen, que vem tirando leite de pedra de sua Red Bull.

A próxima etapa acontece em 28 de abril em Baku, no Azerbaijão. Nos últimos anos, a pista de rua tem proporcionado corridas memoráveis, com disputas intensas em sua longa reta. Esperamos que a dose se repita na prova desse ano. Como sempre, você saberá tudo sobre mais essa etapa no Auto Mitos! Até lá!