Charles Leclerc brilha, domina o fim de semana, mas perde a vitória para Lewis Hamilton após um problema no motor de sua Ferrari no fim da corrida
Por Luís Gustavo Ramiro Gonçalves // Instagram: @automitos

O domínio da Mercedes na primeira etapa do ano, na Austrália, assustou àqueles que esperavam uma temporada mais equilibrada. No entanto, a etapa bareinita presenciou um desempenho muito bom da Ferrari, que se mostrou melhor nos treinos e dominou boa parte da corrida. Nos treinos livres, a equipe italiana encabeçou a tabela de tempos uma vez com Vettel e duas com o Charles Leclerc. No qualifying, o jovem monegasco confirmou a enorme expectativa em torno de seu nome e dominou completamente a sessão, marcando a primeira pole de sua carreira. A julgar pela performance apresentada, foi a primeira de muitas que virão nos próximos anos.
O grid era composto pelas Ferraris de Leclerc e Vettel na primeira fila, seguidos por Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, da Mercedes, na segunda. A terceira fila emparelhava a Red Bull de Max Verstappen e a Haas de Kevin Magnussen, confirmando o bom início de ano do time americano. Carlos Sainz, de McLaren e Romain Grosjean, também da Haas, completavam a quarta fila. O top 10 era fechado por Kimi Raikkonen, mais uma vez levando a Sauber ao Q3, e Lando Norris, da McLaren, também em seu segundo Q3 em duas corridas.

Na largada, Leclerc não teve a saída que esperava e caiu para o terceiro lugar, sendo superado pelo companheiro de equipe e por Valtteri Bottas, que pulou de quarto para segundo. No tumulto entre as curvas 1 e 2, Grosjean e Stroll se tocaram, forçando uma parada precoce para ambos repararem seus carros e os jogando para o fundo do pelotão. Apesar da boa arrancada, Bottas foi superado por Leclerc e Hamilton ainda no início, voltando à quarta posição.
Leclerc partiu para cima de Vettel em busca da liderança perdida na largada. Vale a lembrança de que, na corrida anterior, a Ferrari instruiu seu novo piloto a não atacar seu experiente companheiro de equipe mesmo estando em ritmo melhor. Dessa vez a orientação foi menos expressa, pedindo que Leclerc aguardasse algumas voltas até ter autorização para ir para o ataque. No entanto, mostrando grande personalidade, o jovem de 21 anos pegou o vácuo e fez a ultrapassagem com propriedade, em mais uma demonstração de seu excelente rendimento em todo o fim de semana.

Na briga pela quinta posição, Sainz tentou o ataque para cima de Verstappen, mas acabou prensando o holandês contra zebra e sofreu um pneu furado após o toque. A direção de prova entendeu o entrevero como incidente de corrida e não aplicou punições. Logo atrás, Ricciardo, Raikkonen, Hulkenberg (em rápida recuperação após largar em 17º), Perez, Magnussen, Norris, Gasly, Albon, Kvyat e Giovinazzi andavam juntos, demonstrando mais uma vez um intenso equilíbrio no pelotão intermediário.
A primeira janela de pit stops começou na volta 12 com Verstappen. Bottas entrou na volta seguinte e perdeu a quarta posição para o holandês da Red Bull – posição que seria recuperada na pista pouco depois. Leclerc, Hamilton e Vettel pararam em seguida. Hamilton ganhou a segunda posição de Vettel. Dos cinco, apenas o inglês optou por um novo jogo de pneus macios a fim de tentar um ataque a Leclerc. Os demais colocaram pneus médios. Ricciardo não parou e pulou temporariamente para a liderança. A estratégia de Hamilton não se mostrou eficaz, no entanto. Leclerc continuava a abrir na liderança, inclusive conseguindo a melhor volta da prova, enquanto os pneus do piloto da Mercedes começavam a se desgastar antes dos do rival da Ferrari. A perda de desempenho permitiu que Vettel o ultrapassasse e pavimentasse uma provável dobradinha vermelha. Mais atrás, Nico Hulkenberg e Lando Norris se destacavam. Grosjean se viu obrigado a parar após problemas em sua Haas na volta 18.

A segunda rodada de troca de pneus também foi aberta por Verstappen, na 33ª volta. Nas quatro voltas seguintes, todos os ponteiros pararam para colocar novos pneus médios. Hamilton, que fez sua parada um pouco antes de Vettel, tirou a diferença enquanto o rival ainda estava com pneus gastos. No retorno do alemão à pista, o inglês partiu para o ataque em busca do segundo posto. Vettel conseguiu se defender bem, proporcionando um belíssimo duelo entre os dois maiores nomes do grid atual. Mas o tetracampeão logo mostrou que ainda não se encontrou após uma má temporada no ano passado. Ao tentar reagir à categórica ultrapassagem de Hamilton, ele destracionou na saída da curva 3 e rodou sozinho. Como consequência, a vibração causada pelo pneu parcialmente destruído causou a perda do bico do carro e forçou um lento retorno aos boxes e uma parada prolongada para troca das peças danificadas. O ferrarista voltou à pista num distante nono lugar e viu seu novo companheiro disparar na ponta, colocando ainda mais pressão em sua cabeça.
Na briga pela quinta posição, as Renaults de Ricciardo, numa inusitada estratégia de apenas uma parada, e Hulkenberg, em incrível corrida de recuperação, se tocaram, com vantagem para o alemão e perda de um pedaço da asa dianteira para o australiano, que acabou perdendo ritmo e algumas posições em decorrência do problema.

A volta 46 foi o momento da grande reviravolta da prova. Charles Leclerc, o xodó do mundo da Fórmula 1, era líder com 10 segundos de vantagem sobre Hamilton e com caminho aberto para a primeira vitória de sua carreira, quando começou a relatar perda de potência em seu carro. Seu tempo de volta começou a subir assustadoramente. A princípio, se pensou que havia um problema no sistema de recuperação de energia, mas após a corrida a Ferrari informou que a falha foi em um dos seis cilindros do motor. Fato é que a perda de velocidade tornou o monegasco uma presa fácil para as Mercedes de Hamilton e Bottas, e fez escorrer pelos dedos uma vitória que parecia certa.
Mas o cenário poderia ser ainda pior para Leclerc, que estava na mira de Verstappen para perder o pódio, não fosse a quebra sincronizada das Renaults. No 54º giro, a três do fim, os carros de Hulkemberg, sexto, e Ricciardo, nono, quebraram no mesmo ponto de forma muito parecida, ficando largados ao lado da pista a poucos metros de distância um do outro. Um terceiro carro com motor Renault, a McLaren de Carlos Sainz, também precisou abandonar na mesma volta. A direção de prova entendeu ser mais prudente acionar o safety car para retirar as Renaults da área de escape, e assim a corrida continuou até o fim, sendo a primeira prova a terminar com carro de segurança desde o GP da China de 2015.

A vitória do GP do Barein ficou com Lewis Hamilton, que mostrou a maturidade de um pentacampeão para escalar da quarta posição, onde terminou a primeira volta, ao topo do pódio. Mesmo ainda abaixo de seu máximo, ele é capaz de ultrapassar Vettel de forma contundente e se manter de forma segura no pelotão da frente. Com a sorte que acompanha os campeões, contou com um problema no carro de Leclerc para garantir a vitória. Um piloto top de linha em seu auge, que sabe “ler” a corrida e capitalizar pontos de forma excepcional. Já é possível dizer que ele se consolida como grande favorito ao título – mais uma vez. Digna de nota foi a postura humilde e complacente do campeão com relação à frustação do piloto da Ferrari.

Em segundo, Valtteri Bottas não conseguiu repetir a performance dominante da corrida anterior. A diferença significativa entre ele e Hamilton lembrou os dois últimos anos, em que o finlandês foi esmagado pelo companheiro. Com as duas dobradinhas da Mercedes, os pilotos estariam empatados na tabela de classificação não fosse por um detalhe: a volta mais rápida de Bottas na Austrália, que o mantém como líder do campeonato por um ponto.
Terceiro, Charles Leclerc é o grande vencedor da prova. Seu domínio nas sessões de treinos e em grande parte da corrida trouxe holofotes e mostrou definitivamente que a promessa da Sauber não sentiu o peso de pilotar para uma equipe grande. Pelo contrário: o desempenho e a personalidade do garoto jogaram toda a pressão nas costas do já pressionado Sebastian Vettel. A vitória de Leclerc não veio por um detalhe, mas certamente virá em breve. Agora, ele se encontra em posição muito confortável na equipe, pois pilota com moral alta e à frente do companheiro na tabela, o que deve evitar problemas com jogo de equipe – ao menos por enquanto.
Max Verstappen mostra mais uma vez que faz a diferença com o carro da Red Bull. O desempenho do time esteve mais longe de Mercedes e Ferrari do que na última etapa, mas o holandês conseguiu andar em um seguro quarto lugar (quinto, até o erro de Vettel) e garantir bons pontos, enquanto seu companheiro não passou do pelotão intermediário. Comendo pelas beiradas, o “Mad Max” é terceiro no campeonato.

Sebastian Vettel, quinto, reacende a luz amarela que o acompanhou no ano passado. Mais uma vez, errou sob pressão e jogou fora pontos preciosos, como tantas vezes em 2018. Ao contrário do ano passado, em que tinha um companheiro sem grandes ambições em termos de títulos, esse ano divide garagem com um quase-novato sedento por mostrar trabalho, que o dominou nesse fim de semana e já está à frente na pontuação do campeonato. A imprensa italiana volta a chiar contra a alemão. É hora de o tetracampeão esfriar a cabeça e voltar a pilotar o que mostrou na Red Bull. Antes que seja tarde demais.
Lando Norris, assim como Leclerc e Verstappen, é mais uma amostra de que a nova geração está repleta de talentos. O sexto lugar com a McLaren garante seus primeiros pontos e mostra também o crescimento da equipe, que parece conseguir andar mais forte que nas últimas temporadas.

Sétimo, Kimi Raikkonen chegou à Alfa Romeo e já se impôs. Com a consistência e a velocidade que lhe são peculiares, o veterano já soma 10 pontos e é o sexto do campeonato. Destaque para o momento em que ultrapassou as duas Toro Rosso em duas curvas seguidas, em um dos grandes lances da temporada até agora.
Pierre Gasly conquistou seus primeiros pontos pela Red Bull com um oitavo lugar. Chama a atenção, no entanto, a diferença de performance entre ele seu companheiro Max Verstappen. Enquanto o holandês sempre figurou entre os cinco primeiros neste ano, seja em qualificação, seja em corrida, o francês ainda não chegou ao Q3 e tem sofrido para sair do bolo intermediário nas corridas. No ano passado, na filial Toro Rosso, ele mostrou ser bom piloto, mas ainda está devendo na equipe matriz.
O nono foi Alex Albon, da Toro Rosso, que conquistou 2 pontos e se tornou o primeiro tailandês a pontuar na Fórmula 1 em mais de 50 anos.
Sergio Perez, de Racing Point, fechou a zona de pontuação e se redime da má atuação na primeira corrida do ano.

O resultado final foi completado por Antonio Giovinazzi, da Alfa Romeo, ainda devendo; Daniil Kvyat, da Toro Rosso, que ficou para trás após um toque em Giovinazzi; Kevin Magnussen, da Haas, com fraco ritmo de corrida após boa posição de largada; Lance Stroll, da Racing Point; e as Williams de George Russel e Robert Kubica.
Não completaram a prova as Renaults de Nico Hulkenberg, que vinha para ser o nome da corrida, e Daniel Ricciardo, ainda aquém do que pilotou na Red Bull. Além deles, Romain Grosjean e Carlos Sainz abandonaram por problemas em seus carros, mas vinham já no fundo do grid por problemas causados em incidentes ainda nas primeiras voltas. Curiosamente, os três pilotos que não terminaram a primeira corrida também não chegaram ao fim da segunda: Ricciardo, Grosjean e Sainz.

Mais uma boa corrida nesta temporada 2019 de Fórmula. A ascensão da Ferrari mostra que a disputa com a Mercedes deve ser interessante ao longo do ano, como vimos no Barein. A expectativa é alta para o próximo Grande Prêmio, no dia 14 de abril, em Xangai, na China, pista que tem apresentado boas corridas em anos recentes. O evento entrará para a história como o milésimo GP da história da Fórmula 1. Aguardamos ansiosamente para saber o que a Liberty Media preparou para a festa. Você saberá tudo sobre mais essa etapa aqui no Auto Mitos. Até lá!