No detalhe: a bela vitória de Valtteri Bottas no GP da Austrália de 2019

Finlandês da Mercedes imprime ritmo intenso do começo ao fim, não dá chances a Hamilton e garante a vitória da primeira etapa do ano – com direito a ponto extra

Por Luís Gustavo Ramiro Gonçalves // Instagram: @automitos

Bottas lidera o pelotão logo na segunda curva (Imagem: FIA)

Depois de uma longa espera de quase quatro meses desde a última etapa da temporada 2018 da Fórmula 1, finalmente teve início a temporada 2019. Passado o calor da ação e já com as notícias de pós-corrida publicadas, vamos ao nosso relato e nossa análise do bom primeiro Grande Prêmio do ano, tradicionalmente realizado na pista de Albert Park, na Austrália.

Como vem acontecendo nos últimos anos, a Mercedes escondeu o jogo nos testes pré-temporada, jogando para a Ferrari a pressão de (supostamente) ter o melhor carro para o campeonato que se inicia. Ciente de sua capacidade em velocidade pura, a equipe alemã concentra seus esforços em simulações de corrida e testes de confiabilidade, sem necessidade de forçar para voltas velozes. Já nos treinos livres para o GP da Austrália, ficou claro que as flechas de prata mantinham o topo que detém – com maior ou menor vantagem – durante toda a era híbrida, iniciada em 2014. As três sessões de treinos livres foram dominadas pelo pentacampeão Lewis Hamilton, e a supremacia se manteve no qualifying, dessa vez com Bottas mais perto do que se poderia imaginar pelo histórico recente do finlandês, mas indicativo do que estaria por vir no domingo.

O grid alinhava as Mercedes de Hamilton e Bottas na primeira fila, seguidos de Vettel, da Ferrari, e Verstappen, da Red Bull. Leclerc, estreando no segundo carro da Ferrari, ficou com o quinto tempo. O top 10 era composto ainda pelas Haas de Grosjean e Magnussen, a McLaren do bom estreante Lando Norris, pelo incansável Kimi Raikkonen, agora na Alfa Romeo, e Sergio Perez pela Racing Point.

A largada do GP da Austrália vista do alto (Imagem: FIA)

Logo na largada, Bottas pulou melhor que o companheiro para assumir a ponta e de lá não mais sair. Na confusão do pelotão intermediário, o ídolo local Daniel Ricciardo foi para na grama e perdeu o bico dianteiro, o que causaria seu abandono mais adiante na corrida. Após uma decepcionante 12ª colocação no grid pela sua nova equipe, Renault, a maré de azar que o piloto enfrenta desde o ano passado parece ainda não ter terminado.

As primeiras voltas se consolidaram com Bottas, Hamilton, Vettel, Verstappen e Leclerc abrindo do resto do pelotão no top 5. O finlandês imprimia um ritmo superior ao do inglês, que por sua vez abria uma margem confortável em relação ao alemão e aos demais.

Ainda na volta 11, o motor Renault da McLaren de Carlos Sainz começou a fumar, pondo um fim a sua corrida, depois de uma discreta 18ª colocação no grid.

Motor da McLaren de Carlos Sainz solta muita fumaça no primeiro abandono do ano. (Imagem: FIA)

O momento decisivo da corrida se daria na volta 15, quando a Ferrari chamou Vettel para trocar os pneus supermacios pelos macios. A Mercedes, pensando que a estratégia poderia ser uma carta na manga da equipe italiana para tomar o segundo lugar de Hamilton, chamou o inglês aos boxes na volta seguinte para a mesma troca na intenção e “marcar” a estratégia do alemão. Não deu certo. Bottas, Leclerc e Verstappen, com as estratégias “originais”, mostraram que os pneus utilizados na largada ainda poderiam resistir bem e ficaram na pista por pelo menos mais 10 voltas.

Como resultado da parada precoce, tanto Hamilton quando Vettel apresentavam dificuldades em manter um ritmo bom com pneus já mais desgastados e viam seus companheiros (e Verstappen) andarem bem mais forte. Bottas abria uma folga segura na liderança, enquanto o holandês da Red Bull e o garoto monegasco da Ferrari vinham com tudo buscar o pódio. Verstappen passou Vettel, mas não teve forças para chegar a Hamilton. Já Leclerc não teve a mesma sorte e, logo em sua primeira corrida pela equipe italiana, sentiu o gosto amargo da explícita divisão entre primeiro segundo piloto praticada pelo time. Mesmo com ritmo nitidamente superior, na ordem de um segundo por volta, Leclerc, perguntou claramente ao time pelo rádio se tinha autorização de ultrapassar o companheiro e escutou um sonoro “não” como resposta. Postura lamentável do novo chefe da Ferrari, Mattia Binotto, logo em sua primeira corrida no comando da equipe.

Verstappen coloca o carro por fora e toma a 3a. posição de Sebastian Vettel (Imagem: FIA)

O pelotão intermediário viu uma briga intensa entre carros da Alfa Romeo, Haas, McLaren, Racing Point, Renault e Toro Rosso, além do Red Bull de Pierre Gasly, em corrida de recuperação sem muito brilho após largar em 17ª. Boa parte da disputa se deu pela estranha decisão de Alfa Romeo de manter Antonio Giovinazzi na pista com pneus detonados, o que gerou tráfego atrás e um sequência de ultrapassagens. O equilíbrio desse bloco deve ter bastante destaque nessa temporada. Nota triste é a Williams, tradicionalíssima equipe inglesa que sofre nas duas últimas posições, ainda longe do resto do grupo. Se há algo positivo que o time possa tirar dessa etapa é o fato de ambos os pilotos completarem a prova, o que gera quilometragem para testes e denota alguma confiabilidade.

A Williams não é nem sombra da grande equipe que já foi um dia. (Imagem: FIA)

Nas voltas finais, Bottas apertou ainda mais o ritmo para conseguir um ponto extra dado ao detentor da volta mais rápida (nota: essa informação não consta em nosso dossiê sobre a temporada pois a regra foi aprovada às vésperas da etapa inaugural). Em briga particular com Verstappen, o finlandês cravou um temporal a uma volta do fim e garantiu os 26 pontos.

O Grande Prêmio da Austrália viu Valtteri Bottas vencer de forma maiúscula a abertura da temporada, em corrida tida pelo próprio como a melhor de sua carreira. A comemoração pelo rádio, ofendendo os detratores e com certo deboche à própria equipe com um sutil “how about that?” (“que tal isso?”), mostram que o piloto do carro 77 não veio para 2019 para brincadeira. Em seu último ano de contrato e com Esteban Ocon louco para assumir seu lugar, é tudo ou nada para ele. Ser um mero segundo piloto não está em seus planos, como ficou claro no domingo. Resta saber se ele conseguirá manter o mesmo alto nível ao longo das 20 etapas restantes, e se ele aguenta a pressão de quando Hamilton estiver em um dia melhor.

À frente, Bottas disparou para garantir o ponto extra pela melhor volta (Imagem: FIA)

Lewis Hamilton se viu amassado pelo companheiro do início ao fim da corrida, mesmo depois de uma sequência de treinos em que foi dominante. Depois da prova, a equipe detectou um pequeno problema no chassi do carro do piloto inglês, que pode ser a justificativa para o ritmo abaixo do esperado. De qualquer forma, o nível de Hamilton é tão alto que, mesmo sob críticas pela atuação fraca, ele chegou em segundo lugar e garantiu 18 pontos para o campeonato – para o qual continua sendo o favorito, diga-se.

Max Verstappen completou o pódio e deixou claro que os motores Honda não são um problema para a Red Bull. Aliás, trata-se do primeiro pódio de um carro com motor da marca japonesa desde seu retorno à F1 em 2015 e o primeiro desde o terceiro lugar de Rubens Barrichello na Inglaterra em 2008. Excelente resultado para o piloto, para a equipe e para a fornecedora de motores.

Com Sebastian Vettel em quarto e Charles Leclerc em quinto, a Ferrari foi a grande decepção do fim de semana. Ainda não se sabe se o problema foi alguma dificuldade no acerto dos carros, as características da pista ou mesmo um mau momento dos pilotos, mas não se esperava um desempenho tão aquém do apresentado pela Mercedes. Pelo bem do campeonato, a equipe terá bastante trabalho pela frente. E, reforçamos, lamentável o jogo de equipe logo na primeira corrida do ano.

Leclerc força e acaba cometendo erro, mas sem maiores consequências (Imagem: FIA)

Kevin Magnussen foi sexto, o “primeiro do resto”, em bom desempenho da Haas. Provavelmente estaria junto do companheiro Romain Grosjean não fosse uma porca mal fixada no pit stop do francês que acabou por desprender seu pneu e tira-lo da prova. Curiosamente, na mesma pista no ano passado, ambos os pilotos da Haas vinham bem e sofreram com problemas na fixação do mesmo pneu, abandonando a corrida. O carro tem potencial e a dupla é agressiva e competente. Veremos onde o time pode chegar..

Nico Hulkenberg, da Renault, ganhou quatro posições em relação à largada e terminou em sétimo. Ainda é cedo para tirar conclusões, especialmente em uma pista tão única quanto Albert Park, mas pode ser sinal de que o ritmo de corrida do carro seja bom. De qualquer forma, ainda é menos do que se esperava da Renault para a temporada. A ver a evolução ao longo do ano.

A Haas mostrou bom ritmo e Magnussen garantiu o sexto lugar. Hulkenberg, de Renault, vem logo atrás. (Imagem: FIA)

Kimi Raikkonen, oitavo, mostra na Alfa Romeo a constância que vinha apresentando no ano passado pela Ferrari.

Lance Stroll, nono, é destaque positivo após pontuar vindo de uma largada em 16º. Seu companheiro de Racing Point Sergio Perez, por outro lado, largou em 10º e terminou apenas em 13º. Resultado bom para dar moral ao canadense e mostrar que ele pode ser mais que um piloto pagante.

Os carros da Racing Point rasgam o setor 2 do belo circuito de Albert Park (Imagem: FIA)

A zona de pontuação foi fechada por Daniil Kvyat, da Toro Rosso, que segurou o Red Bull de Pierre Gasly e pontua em seu retorno à Fórmula 1. Assim como Stroll, um resultado bom para dar confiança ao piloto, que deve liderar a equipe durante a temporada.

O resultado final foi completado por Pierre Gasly, da Red Bull; Lando Norris, da McLaren; Sergio Perez, Racing Point; Alex Albon, Toro Rosso; Antonio Giovinazzi, Alfa Romeo; George Russel e Robert Kubica, Williams. Sainz, Ricciardo e Grosjean não completaram a prova.

Valtteri Bottas celebra sua belíssima vitória no GP da Austrália (Imagem: FIA)

As próximas etapas validarão os números, mas as mudanças aerodinâmicas aumentaram em três vezes a quantidade de ultrapassagens em relação ao GP da Austrália do ano passado, o que é extremamente positivo. Disputas em uma pista travada como Albert Park são sinal de que as corridas podem ser ainda mais movimentadas em circuitos com traçados mais velozes e com mais pontos de ultrapassagem. A conferir já na próxima corrida, que acontece em 31 de março, no Barein.

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