Nesta semana, o carro mais querido do Brasil chegou aos 40 anos de mercado. Já são 8,5 milhões de unidades produzidas – e contando. Embarcamos numa viagem no tempo relembrando a trajetória deste ícone da indústria automotiva brasileira
Por Luís Gustavo Ramiro Gonçalves // Instagram: @automitos

Você muito provavelmente já andou em um Gol. Se não teve um, com certeza conhece alguém que tem ou teve. Sendo o carro mais vendido de todos os tempos no Brasil, o Gol tem sua história ligada às de milhões de famílias. Bonito ou feio. Popular ou refinado. Moderno ou defasado. Básico ou esportivo. Econômico ou beberrão. Manutenção barata ou seguro caro. Sonho ou pesadelo. “De playboy” ou “de mano”. Ágil ou lento. Confortável ou “torto”. O Gol é um carro presente na vida da maioria dos brasileiros de alguma maneira, e praticamente todo mundo tem uma opinião formada sobre ele. São tantos anos de estrada, tantas versões, gerações, edições especiais e experiências que as perspectivas podem mudar completamente de uma pessoa para outra. Mas uma coisa é certa: ninguém é indiferente ao fenômeno Gol.
No fim dos anos 1970, a Volkswagen do Brasil assistiu com preocupação a chegada de concorrentes mais modernos, como Fiat 147 e o Chevrolet Chevette. Temendo que o Fusca poderia não segurar suas altas vendas por muito tempo e que a Brasília não estaria à altura dos rivais, a empresa decidiu que precisaria de um novo hatch compacto. O então denominado Projeto BX usou como base a plataforma do Polo europeu de primeira geração, com os devidos reforços estruturais para aguentar o uso mais pesado do consumidor brasileiro. Após alguns anos de desenvolvimento local, a VW chegou a um hatch compacto de capô longo, motor dianteiro longitudinal e tração dianteira. A produção seria na então nova fábrica de Taubaté.
A primeira geração – O Gol Quadrado

O carro foi lançado em maio de 1980 com o nome Gol, em linha com outros nomes referentes a esporte em carros Volkswagen da época, como Golf, Polo e Derby. Não por acaso, era uma referência ao esporte mais popular do Brasil. O nome Angra chegou a ser cogitado, mas o receio de que pudesse ser associado a algum eventual acidente na usina nuclear que era construída na cidade carioca fez a ideia não ir adiante.

Apesar de trazer suspensão estável e confortável e do design moderno, o desempenho decepcionava pela baixa potência do já defasado motor AP 1300 a ar – apenas 42 cv. No fim do ano, chegou a versão a álcool. Já no ano seguinte, foi adicionada à linha o motor 1600, ainda a ar, com 51 cv, mas que já era suficiente para dar muito mais fôlego ao carro.
A família BX ganhava um sedã em 1981 (Voyage) e uma perua em 1983 (Parati), ambos com uma dianteira mais moderna e motor 1.5 refrigerado a água. Além deles, era lançada uma picape (Saveiro) em 1982, ainda com frente de Gol e motor a ar.

Em 1982 o motor 1.3 foi aposentado e a VW apresentou aquela que viria a ser a mais famosa das inúmeras versões especiais do Gol, o Gol Copa. Com o motor 1.6 e baseado na linha LS, ele trazia vários adereços que remetiam ao mundial de futebol, como o pomo do câmbio em formato de bola de futebol. A missão de fazer as vendas do pequeno Volkswagen finalmente decolarem deu certo.
1984 viu o lançamento do Gol GT, que iniciou a linhagem esportiva e estreou o motor 1800 a água na família. No GT, esse motor vinha com um comando de válvulas mais forte e rendia supostos 99 cv. Dizia-se que a potência era maior, mas carros com mais de 100 cv se enquadravam em uma faixa de tributação acima. O carro chegava aos 100 km/h em menos de 10 segundos. O mesmo motor chegaria aos demais modelos da linha com uma calibração mais mansa, rendendo até 94 cv de potência na versão a álcool (84 cv a gasolina).

Em 85, chegava às versões S e LS o motor AP 600, um 1.6 a água, que deu um grande salto de qualidade em relação aos antigos a ar. A potência pulava de 51 para 81 cv na versão a gasolina (90 cv a álcool). Desempenho e consumo melhoravam e o problema de ruído e vibrações do antigo motor a ar se acabava. Nesse mesmo ano, o Gol recebeu a dianteira de Voyage e Parati. Mas eles só seriam iguais até 87, quando toda a família passaria por uma nova plástica que novamente diferenciaria a frente da hatch e da picape das outras duas carrocerias. Como antes, Voyage e Parati ganharam faróis mais finos e esticados. O Gol ganhou as lanternas traseiras compridas que carregou até o fim da primeira geração.

Com a atualização de design veio uma atualização nas versões. A básica BX passava a se chamar C, e aposentava o motor a ar, a S passava a ser CL e a LS virava GL. Gol GT virava Gol GTS, e era a única versão do hatch com as novas dianteiras de Voyage e Parati, sempre adicionadas dos faróis de longo alcance instalados na grade, marca registrada das versões esportivas da era “quadrada”. O GTS trazia ainda o novo painel mais refinado lançado na linha 87 do sedã e da perua. Nesse ano, o Gol assumiu a liderança do ranking nacional de vendas, de onde não sairia até 2014.

No fim de 1988 era apresentada a versão mais lendária do Gol, o GTi, equipado com o motor 2.0 do Santana. A grande novidade era a injeção eletrônica, primeira em um carro nacional. A potência chegava aos 120 cv, com aceleração de 0 a 100 km/h em 8,8 segundos – um desempenho impressionante para um carro que em sua primeira versão, 8 anos antes, fazia o mesmo em intermináveis 30 segundos (de acordo com teste da revista Quatro Rodas em 1980). Sempre equipado com pintura saia-e-blusa, bancos Recaro, volante em couro e aerofólio, o Gol GTi se tornou um clássico de imediato. O lançamento oficial se deu no começo de 89.
Em 90, com a consolidação da joint-venture de VW e Ford que formou a Autolatina, chegou ao Gol CL o motor 1.6 CHT da Ford (rebatizado de AE 1600) em substituição ao AP 600, da própria Volks. O carro perdia em potência, mas melhorava em consumo. A versão GL mantinha o motor 1.8 VW. O motor tradicional AP 1.6 voltaria ao catálogo em 1993.
A linha 1991 trazia mais uma atualização o design, com a frente apelidada de “chinesa”, que trazia faróis mais finos e levemente arredondados. As versões esportivas passaram a vir com rodas inspiradas no conceito VW Orbit, de 1986. Eram rodas com a circunferência quase toda fechada, que cairiam no gosto de muitos dos fãs da família Gol.

1992 foi o ano do lançamento do Gol 1000. A versão básica chegava para brigar com o Fiat Uno Mille. Para isso, utilizava um motor AE (Ford CHT, assim como do CL 1.6) de apenas 50 cv de potência e acabamento simplificado. Uma curiosidade sobre os motores AE do período da Autolatina já mencionados (1.6 e 1.0), é que, apesar de serem propulsores utilizados na linha Ford e aperfeiçoados pela marca americana, sua origem remonta a motores Renault da década de 1960.

Uma nova edição da versão Copa, em 1994, marcava o fim da primeira geração do Gol. Essa versão trazia um visual semelhante ao do GTi, mas o motor 1.6, os poucos equipamentos de série e opcionais e quase nenhuma alusão à Copa do Mundo em si deixavam certa decepção quando comparado à bela edição de 1982. No segundo semestre desse ano, era apresentada a segunda geração do Gol. A primeira geração ainda seria feita até 1996 na versão básica 1000.
A segunda Geração – os Gol Bolinha, G3 e G4

A plataforma era ainda era essencialmente a mesma, mas com importantes atualizações. O motor permanecia na posição longitudinal, mas o espaço era ampliado graças à distância entre-eixos aumentada em 11 cm. O design era completamente novo, com formato arredondado e moderno que lhe rendeu o apelido de “bolinha”. A Parati chegou à segunda geração no ano seguinte e Saveiro só em 1998. O Voyage saia de linha.
Num primeiro momento, as versões e opções de motores permaneciam as mesmas da geração anterior. O GTS deixava de existir, ficando o GTI como único esportivo da gama, com seu 2.0 8V reajustado para 109 cv – redução causada por um novo acerto da injeção eletrônica que visava reduzir emissões.
Em 1995, chegava ao GTI o motor alemão 2.0 de 16V, com ótimos 145 cv. Essa versão ficou caracterizada pelo ressalto no lado direito do capô que mais parecia um “galo”. Apesar não ser esteticamente agradável, o detalhe era necessário para acomodar o bloco mais alto do novo motor. Foi o primeiro Gol com quatro válvulas por cilindro e o primeiro com freios ABS.
Com o GTI requintado e caro demais e já sem o GTS, a Volkswagen lançou em 96 a versão TSi, com motor 1.8, que pretendia preencher a lacuna para quem queria um Gol mais bravo mas sem precisar desembolsar tanto na compra e na manutenção. Logo depois, essa versão receberia o 2.0 8V da família AP, recém abandonado pelo GTI.
A linha 97 viu mudanças nas versões mais básicas: agora não havia mais o modelo de primeira geração como opção de entrada e, com o fim da Autolatina, os motores 1.0 deixavam de ser os de origem Ford e passavam a ser de origem Volkswagen, saltando de 50 para 55 cv. Houve ganho de potência também nos motores 1.6 e 1.8, que chegavam aos 89 e 98 cv, respectivamente, graças aos novos sistemas de injeção multiponto. Esse gap de potência entre a versão 1.0 e a 1.6 foi logo suprido pelo motor 1.0 16V, de 69 cv, que passava a ser o 1.0 mais potente do país.

Com isso, a linha Gol chegava a 1998 em seu auge, com nada menos que seis opções de motores (1.0 8V, 1.0 16V, 1.6, 1.8, 2.0 8V e 2.0 16V), diversas versões de acabamento e – finalmente – a opção de duas ou quatro portas.
Em 1999 era apresentada a terceira geração do Gol (G3 para os íntimos), que, apesar de ser chamada assim, não era de fato uma nova geração, mas sim um redesenho com linhas mais retas da geração anterior. Desenho e acabamento do painel evoluíam significativamente. A Parati foi atualizada no mesmo ano e a Saveiro no ano seguinte. A versão GTI mantinha o motor de 145 cv, mas perdia a caracterização esportiva, ficando visualmente muito mais semelhante às versões comuns.

Em 2000 chegava o grande destaque da linha: o novo motor 1.0 16V turbo, o primeiro turbinado dessa cilindrada no Brasil e precursor do que só depois viríamos a conhecer como downsizing – a tendência de motores menores sobrealimentados substituírem os maiores e mais beberrões. A versão sem nome equipada com esse motor recebia uma decoração esportiva especial. Com 112 cv, o carro foi elogiado pela crítica, mas sofreu no mercado em razão de sua manutenção mais complexa e de problemas crônicos e acabou não durando muito.
2001 marcou o fim da linha esportiva da família Gol com a aposentadoria do GTI. Já em 2002, as novidades ficaram por conta das atualizações dos motores 1.0 aspirados, que chegavam a 65 e 76 cv nas versões 8V e 16V, respectivamente.

Em 2003, um discreto facelift e o lançamento da tecnologia TotalFlex ao motor 1.6, que passava a aceitar gasolina ou álcool em qualquer proporção. Foi o primeiro carro flexível em combustível do Brasil, algo que hoje se tornou uma quase regra no mercado. O recurso logo se estenderia aos motores 1.8 e 1.0 8V. O 1.0 16V, vítima de resistência por parte do público e de mecânicos, deixava de ser oferecido.

O Gol chegaria à quarta geração em 2006. Saveiro e Parati vieram logo em seguida, quase simultaneamente. Mais uma vez, apenas uma mudança no desenho divulgada pomposamente como nova geração. As grandes novidades no design eram dianteira e traseira mais arredondadas – e sem graça. O novo painel era bem mais simples que o do modelo anterior e alguns equipamentos deixavam se der oferecidos. Saia de cena também o motor 2.0 8V, que sobrevivia até então na Parati. A gama simplificada e com menos opções era um reposicionamento do Gol para que ele fosse o carro de entrada da linha Volks, com suas versões mais potentes e completas dando lugar aos mais modernos Fox e ao Polo. O motor 1.8 caminhava para o fim, sendo oferecido apenas com opção na versão Power. A versão Rallye, com suspensão elevada e adereços estéticos off-road, vinha apenas com o 1.6.
A terceira geração – o “Novo Gol”

A primeira geração durou 14 anos (1980-1994), e a segunda teve exatamente a mesma longevidade. Em 2008, chegava ao mercado um Gol completamente renovado, também desenvolvido no Brasil sobre a plataforma PQ24, de Fox e Polo. Dessa vez, a VW otou por chama-lo de Novo Gol, abandonando sua contagem de gerações. O belo design não guardava nenhuma semelhança com a geração anterior, com frente mais baixa e faróis de formato irregular. A tampa traseira reta era uma homenagem à primeira geração. Finalmente, o motor podia ser alocado na posição transversal, como todos os concorrentes já faziam havia anos. Com isso, o espaço na cabine foi ampliado. A qualidade do interior também melhorou, tanto em desenho, acabamento e equipamentos disponíveis quanto em posição de dirigir. A Parati não chegou a essa geração, permanecendo mais alguns anos no mercado ainda com o modelo anterior. A Saveiro veio em 2009 junto com a grande novidade da linha: o retorno do sedã Voyage, que não existiu na segunda geração da família.

As opões de motor para Gol e Voyage eram apenas duas, a menor variação desde o início dos anos 80. Optava-se pelo 1.0, evoluído, que chegava aos 76 cv, ou pelo novo 1.6, de até 104 cv. A Saveiro vinha apenas com o mais potente. O câmbio era o tradicional manual de 5 marchas, mas já em 2009 passou a ser possível optar por sua versão automatizada I-Motion. Era a primeira vez que o Gol podia vir com câmbio que trocava as marchas sozinho, apesar de ainda não ser um automático de fato.
Novidades só viriam em 2012, quando o design dianteiro passou a adotar a linguagem visual global da marca. Os motores receberam leves atualizações que visavam a redução de consumo e emissões. A maior mudança foi na eletrônica, que passou a permitir a instalação de recursos mais sofisticados, como computador de bordo mais completo, retrovisores elétricos rebatíveis e tela multimídia.

Em 2014, após 27 anos na liderança do mercado, o Gol perdeu a primeira posição para o Fiat Palio. No ano seguinte, correndo atrás do prejuízo, a linha ganhava ainda o novo motor 1.6 16V e 120 cv do Polo. Esse motor não substituía o tradicional 8V, que ficava restrito às versões intermediárias.
Em 2016, mais uma atualização no design. As mudanças foram muito discretas na dianteira, um pouco maiores na traseira e mais profundas no interior, com um painel inteiramente novo. O motor 1.0 passava a ser o três cilindros do up!, com potência de até 82 cv. A Saveiro ganhava uma frente diferente dos demais representantes da linha, com faróis maiores.

Em 2018, importantes novidades para Gol e Voyage. Ambos recebiam a dianteira da Saveiro e, finalmente, um câmbio automático. Tratava-se do bom câmbio de seis marchas já utilizado em diversos carros da Volkswagen havia duas décadas. Ele vinha sempre atrelado ao motor 1.6 16V e 120 cv. O câmbio manual ficava restrito ao motor 1.0 ou ao 1.6 8V, menos potente.
Agora, nesse maio de 2020, o carro mais produzido e mais vendido do Brasil em todos os tempos se torna um quarentão. Ele é o automóvel mais longevo do Brasil ainda em produção, e a Volkswagen não pensa em aposenta-lo tão cedo – pelo contrário, uma nova geração está em pauta para os próximos anos. Até o fim de abril já haviam sido produzidas 8.342.260 unidades, sendo quase 6.952.153 vendidos no Brasil e 1.515.305 exportados, fazendo do Gol o carro mais fabricado, vendido e exportado de nossa história.
40 anos de tradição e valorização

O Gol herdou de seus antepassados as famas de carro confiável, robusto e bom de mercado e as manteve. Esse texto é escrito durante o período de quarentena em razão da pandemia de corona vírus que assola o mundo todo. Nesse momento de vendas de carros em franca queda, o Gol se destacou, ganhando posições no ranking e voltando ao pódio. É sintomático que suas vendas se sobressaiam num momento de incerteza e medo de uma grave recessão econômica. Uma evidência clara de como sua boa fama está enraizada no consumidor brasileiro. Mesmo sendo um carro, hoje, defasado em relação a boa parte dos concorrentes e já sem muito esforço de marketing por parte da fábrica, sua imagem de valente, fácil de manter e bom de mercado construída nessa bela trajetória fala por si e ainda potencializa suas vendas.

Versões esportivas do passado, como as linhas GT, GTS e GTi, e edições especiais, como Copa e Plus, não param de se valorizar no mercado de usados. O status de “clássico” já é utilizado para designar esses carros há alguns anos. Versões mais comuns, se bem conservadas, também podem ser encontradas por valores crescentes. E mesmo unidades antigas que já viveram dias melhores encontram bom mercado, seja por restauradores, seja por quem deseja modificar e envenenar o carro – outro público fiel da família Gol.
Goste ou não, você não pode negar: o Gol não foi apenas um gol, mas um golaço da Volkswagen do Brasil.












Depois de todas essas informações, e de haver sido proprietário de dois Gols, e uma Parati, confesso que me deu saudade, e uma vontade imensa de ter novamente um Gol na garagem.
Carro robusto, mas ao mesmo tempo simpático; simples mas também orgulhoso, e que não te deixa na mão.
Olha, não sei não se não será o caso de um revival…
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Excelente detalhamento. viagem nas diferentes épocas.
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