Renault Stepway Expression 1.6 2019 – o carro certo com o preço errado

Por Luís Gustavo Ramiro Gonçalves // Instagram: @automitos

Em 2017, a Renault proclamou a independência da série aventureira do Sandero, o Stepway. Ao deixar de ser uma versão e passar a ser um modelo (na teoria), a Renault pôde criar versões diferentes do Stepway. Assim, o consumidor tem à sua disposição o Stepway Expression a R$ 61.990 e o Dynamique, por R$ 62.990, ambos com câmbio manual de cinco marchas. Por mais 5 mil reais, é possível equipar o Dynamique com o câmbio automatizado Easy’R, de embreagem simples. O Dynamique conta com estofamento dos bancos e detalhes de acabamento diferenciados, controle de estabilidade (apenas no automatizado), kit multimídia com GPS e câmera de ré, banco rebatível na proporção 2/3, ar condicionado automático e volante revestido em couro. O motor é sempre o mesmo 1.6 16V SCe de 115 cv quando abastecido com gasolina e 118 cv quando a etanol. O torque é de 16,0 kgfm com ambos os combustíveis.

Durante a última semana, pudemos conviver por quatro dias com o Stepway Expression em trechos urbanos, rodovias, ruas de terra e paralelepípedo. O design segue o agradável estilo apresentado na linha 2015 da família Logan/Sandero (desculpe Renault, para nós o Stepway ainda é um Sandero), quando ambos passaram por uma reestilização completa e deixaram a cara de carro de baixo custo para trás. Seguindo a duradoura moda de aventureiros urbanos, o Stepway conta com plásticos pretos no para-choque dianteiro entre os farois e os farois de neblina, remetendo a uma maior robustez, além de racks longitudinais, saídas de ar falsas na traseira e suspensão elevada, que lhe dá um vão livre de 190 mm. Os apetrechos aventureiros são dosados na medida para dar certa personalidade ao carro sem deixa-lo poluído e exagerado, como vemos na categoria com alguma frequência – Etios Cross que o diga. Vale ressaltar que mais uma mudança estética na linha é esperada ainda para esse ano, o que pode deixar o carro datado em pouco tempo.

O parachoque do Stepway tem diferenças em relação ao Sandero “civil” (Imagem: Renault – divulgação)

Como já é tradição nos compactos de plataforma Dacia (Logan, Sandero e Duster), o espaço interno chama a atenção. Uma pessoa de 1,90 metro de altura consegue viajar com relativo conforto no banco traseiro, algo raro no segmento dos compactos. O espaço generoso se dá pelo porte avantajado da carroceria, com 2,59 de distância entre-eixos e 1,76 de largura. O porta malas de 320 litros também é bom. A bordo, os bancos são confortáveis e o isolamento acústico é eficiente, mas a qualidade dos materiais do painel deixa a desejar. O tom black piano até tenta passar algum requinte, mas as peças de plástico rígido entregam a simplicidade do acabamento. O ar condicionado foi levado ao limite para combater o calor que passava dos 40°C no litoral do Rio de Janeiro, mas foi competente em manter a temperatura. De série, vidros elétricos nas quatro portas, computador de bordo, direção assistida, rodas de liga leve, faróis de neblina e sensor de estacionamento traseiro.

Alguns detalhes de ergonomia merecem atenção da Renault: os botões giratórios do controle manual do ar condicionando não possuem marcação, de forma que fica difícil saber quais posições estão ativas; no rádio, o botão giratório muda de estação e o volume é controlado por botões, o inverso do que se tornou padrão na maioria dos carros; os comandos dos vidros elétricos traseiros ficam no painel, em posição nada prática; e está na hora dos comandos do rádio migrarem para o volante e abandonarem os anacrônicos comando satélite, herança do Mégane de primeira geração. Nada grave, mas são pequenas funcionalidades que poderiam ser mais práticas do que o são. Por falar no rádio, o kit multimídia faz falta em um carro de mais de 60 mil reais e que já equipa grande parte dos Sanderos 1.0. Nada grave, mas são pequenas funcionalidades que poderiam tornar a vida a bordo mais prática e intuitiva.

A versão Expression peca ao não trazer o kit multimídia (Imagem: Renault – divulgação)

Encontrar a melhor posição de dirigir é fácil e a altura elevada garante boa visibilidade. O motor 1.6 é suficiente para o peso o carro: se não empolga, pelo menos não há sofrimento para se manter um bom ritmo na estrada nem necessidade de reduções constantes. Subidas também são encaradas sem sustos. A função start-stop ajuda na economia. Com o recurso, o motor é desligado ou se parar em um semáforo ou congestionamento e é rapidamente ligado ao menor toque do pé esquerdo à embreagem. É possível desativar o sistema por um botão no painel – recurso útil quando se está com o ar condicionado ligado, uma vez que o ar não funciona com o motor desligado. O câmbio tem bom escalonamento, mas uma sexta marcha seria bem-vinda para reduzir o regime de rotações em rodovias e ajudar no consumo.

A suspensão é padrão: McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira. Seu curso de trabalho longo e o centro de gravidade elevado prejudicam a estabilidade e fazem o carro inclinar bastante em curvas feitas com mais vigor, algo parcialmente compensado pelos pneus 205/55 R16. Por outro lado, justamente a altura avantajada e suspensão macia são trunfos em ruas esburacadas, valetas, estradas de terra batida ou paralelepípedo, absorvendo bem as irregularidades e permitindo trafegar com tranquilidade em pisos imperfeitos.

Pode ser algo específico da unidade avaliada, mas os freios não agradaram. A sensação que ficou foi a de que os freadas eram longas e lentas demais, precisando aumentar a pressão no pedal do meio para uma parada brusca a fim de evitar contato com o carro a frente.

Conclusão

No cômputo geral, o agora independente Renault Stepway é um carro que possui qualidades e bons atributos para convencer o consumidor: espaçoso, imponente, esperto e prático para as ruas brasileiras. O veículo tem, sim, pontos a melhorar, mas é competente dentro daquilo que se propõe. Incompreensível é a decisão da Renault de posicionar as versões Expression e Dynamique tão próximas entre si. Do jeito que são oferecidas, a Expression não parece fazer sentido, uma vez que se abre mão de alguns equipamentos importantes por apenas mil reais de diferença. Considerando que se concretize a possibilidade de uma nova mudança visual, talvez seja o momento de a Renault buscar um reposicionamento da versão básica de seu compacto aventureiro e garantir um volume maior frente a concorrentes com o Hyundai HB20X, Ford Ka Freestyle e mesmo Caoa Chery Tiggo2.

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